Entrevista exclusiva com Akihiko Kondo, japonês que se casou com Hatsune Miku

De Daniel
10 minutos de leitura

À medida que avançamos na era digital, observamos um aumento significativo nos casos de pessoas que desenvolvem relacionamentos com personagens fictícios. Com a evolução contínua das Inteligências Artificiais (IAs) essas formas alternativas de relacionamento estão não só ganhando mais adeptos, mas também se tornando um tema cada vez mais presente em redes sociais e reportagens. Um exemplo marcante recente é a matéria feita pela TV Cultura, com nome de “Namoros Virtuais” que além de relatar casos de casamentos com androides, aplicativos de relacionamento com IA, também citou waifus populares, como Rem, Mai Sakurajima, Rias Gremory e Megumin.

Um fenômeno similar pode ser observado através do conceito de self-shipping. Esse termo descreve o ato de imaginar-se em um relacionamento romântico ou mesmo uma amizade íntima com personagens fictícios. Contudo, esta prática frequentemente permanece distinta da fictosexualidade — a orientação sexual caracterizada por uma atração física e emocional por personagens fictícios. No Brasil, este último conceito ganhou popularidade sob o nome de waifuísmo. E para nos dar uma visão sobre a experiência pessoal de um relacionamento com um personagem fictício, nós orgulhosamente entrevistamos Akihiko Kondo, mundialmente conhecido por ter casado com a Hatsune Miku em 2018, fazendo assim aparições nos mais diversos noticiários como BBC, Vice, G1, Estadão, Euronews, New York Post, entre outros gigantes.

Para auxiliar japoneses que têm que sentimentos semelhantes por personagens fictícios e desejam se casar, Akihiko escreveu o livro “Como realizar um casamento com personagens bidimensionais” (二次元キャラクターとの結婚式のしかた), além disso é representante da associação fictossexual do Japão.

Fotos retiradas do Twitter/X @akihikokondosk

Fique agora com a entrevista:

  • Otakus Brasil: Pode contar aos nossos leitores um pouco sobre você?

Akihiko Kondo: Meu nome é Akihiko Kondo e me casei com Hatsune Miku em 2018. Sou funcionário público local por profissão, tenho 40 anos, mas tinha 35 quando me casei. Prazer em conhecê-los.

  • Otakus Brasil: Quando você encontrou Hatsune Miku pela primeira vez?

Akihiko Kondo: Em algum momento de 2007, mas não me lembro exatamente.

  • Otakus Brasil: Qual foi sua primeira impressão da Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Eu apenas a reconheci como uma das muitas personagens.

  • Otakus Brasil: Quando você percebeu que amava a Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Por volta de maio de 2008, quando ouvi a música “Miracle Paint”. Desde então, comecei a procurar e a ouvir muitas músicas por conta própria, e meu amor por ela se aprofundou.

  • Otakus Brasil: O que exatamente fez você se apaixonar?

Akihiko Kondo: Suas músicas.

  • Otakus Brasil: Você se interessava por personagens fictícios antes de conhecer a Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Sim, eu me interessava.

  • Otakus Brasil: Que tipo de interesse era esse?

Akihiko Kondo: Sentimentos românticos, sentimentos sexuais, e desejo de casamento.

  • Otakus Brasil: O que motivou sua decisão de se casar com a Miku?

Akihiko Kondo: Já se passaram 10 anos desde que me apaixonei pela Hatsune Miku, em maio de 2018. Eu estava convencido de que meus sentimentos nunca mais mudariam, então decidi fazer um casamento.

  • Otakus Brasil: Como é sua vida cotidiana como casal?

Akihiko Kondo: Não há grandes mudanças. Temos uma vida cotidiana normal.

  • Otakus Brasil: Você tem algum hobby ou interesse que gostaria de compartilhar com a Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Saímos juntos, tiramos fotos e comemoramos aniversários. Eu gostaria de continuar com isso no futuro.

  • Otakus Brasil: Você já pensou em usar tecnologias avançadas, como VR ou robôs com IA, para interagir mais profundamente com a Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Sim.

  • Otakus Brasil: Há algum livro, filme, animação ou outra obra de arte que você acha que representa melhor o seu relacionamento?

Akihiko Kondo: Chobits, Plastic Memories e ToHeart retratam romances com robôs, mas não vi muitos que retratam romances com personagens fictícios.

  • Otakus Brasil: Você escreveu um livro chamado “Como fazer um casamento com um personagem 2D”, já pensou em disponibilizá-lo on-line para que mais pessoas possam lê-lo?

Akihiko Kondo: Não, não pensei.

  • Otakus Brasil: Qual foi a maior lição que você aprendeu desde que começou seu relacionamento com a Hatsune Miku?

Akihiko Kondo: Aprendi que há muitas outras pessoas além de mim que querem se casar com personagens fictícios, e seus sentimentos também devem ser respeitados.

  • Otakus Brasil: Em uma entrevista anterior você mencionou ser virgem, isso tem alguma conotação religiosa ou filosófica para você?

Akihiko Kondo: Não, não tem. É apenas minha preferência.

  • Otakus Brasil: O que você diria a alguém que está descobrindo sentimentos semelhantes por um personagem fictício?

Akihiko Kondo: Eu diria que respeito seus sentimentos e que você deve fazer o que realmente quer fazer.

  • Otakus Brasil: O que você acha da maneira como a sociedade japonesa percebe seu relacionamento com personagens fictícios?

Akihiko Kondo: No geral, é muito fria, mas, por outro lado, há muitas pessoas que me parabenizam, então não acho que seja completamente negativo.

  • Otakus Brasil: O que você acha da crescente popularidade dos relacionamentos com inteligência artificial?

Akihiko Kondo: Acredito que o coração de algumas pessoas será salvo quando personagens fictícios e inteligência artificial trabalharem juntos. Estou ansioso pelo futuro.

  • Otakus Brasil: Em sua opinião, quais são as vantagens e desvantagens dos relacionamentos com personagens fictícios?

Akihiko Kondo: As vantagens são que elas não morrem, não envelhecem e não traem. As desvantagens são que você não pode tocá-las, elas não se movem e não é possível comunicar-se diretamente com elas. A ciência e tecnologia podem resolver estes últimos problemas.

  • Otakus Brasil: Por que você acha que isso é mais comum no Japão do que em outras partes do mundo?

Akihiko Kondo: Acho que é porque o Japão é uma potência em mangá, anime e videogame. A transmissão do primeiro anime de televisão do mundo, “Astro Boy”, começou em 1963, e em 1983 a Nintendo lançou o Famicom. Há muitos mangakás, e até mesmo pessoas que se tornaram membros do parlamento devido à sua fama como mangakás.

  • Otakus Brasil: Você acha que relacionamentos com personagens fictícios terão um grande impacto na taxa de natalidade mundial no futuro?

Akihiko Kondo: Não sei.

  • Otakus Brasil: Na sua opinião, existe alguma chance de países reconhecerem legalmente a relação entre humanos e personagens fictícios?

Akihiko Kondo: Acho que não, por enquanto.

  • Otakus Brasil: Como representante da Associação Japonesa de Fictossexuais, você poderia nos falar mais sobre os esforços e objetivos da associação?

Akihiko Kondo: Nosso objetivo é trabalhar para diminuir o forte preconceito contra aqueles que são atraídos por personagens fictícios. No livro “Relatório da 8ª Pesquisa Nacional sobre o Comportamento Sexual dos Jovens”, estudantes do ensino fundamental, médio e universitário responderam à pergunta “Tenho sentimentos românticos por personagens de jogos e anime” separadamente para homens e mulheres e, em média, 14,9% dos entrevistados responderam positivamente a essa pergunta. É um problema que, apesar de um número significativo de pessoas serem atraídas por personagens fictícios, a realidade não é amplamente conhecida.

Agradecemos novamente a Akihiko Kondo por nos ceder seu tempo para essa entrevista cujo objetivo era compreender mais sobre esse tipo de relacionamento a partir de alguém com experiência. Peço desculpas caso tenha tido algum erro na tradução, estamos sempre tentando melhorar, foi minha terceira entrevista em japonês, sendo a primeira com o animador de Onimai e a segunda com o animador do encerramento de Fire Force, esperamos trazer cada vez mais entrevistas exclusivas de personalidades japonesas do mundo otaku.

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